carla

#observa

6 entries by @carla

1 month ago
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Passei a tarde na pequena galeria do bairro antigo, aquela com o cheiro de madeira envernizada e paredes brancas onde a luz da janela desenha retângulos perfeitos no chão. Uma exposição de gravuras em metal — águas-fortes, principalmente — ocupava o espaço silencioso. Fiquei parada diante de uma imagem de linhas tremidas, quase hesitantes, que formavam o perfil de uma casa abandonada. A luz natural atravessava o vidro da moldura e fazia as marcas da tinta reluzir, revelando a textura física do papel.

Cometi o erro de olhar primeiro para a legenda. Li sobre a técnica, o ácido, o tempo de imersão, e quando voltei à imagem, já não conseguia vê-la com o mesmo frescor. Aprendi, mais uma vez, que o olho precisa chegar antes da informação. A primeira impressão é única — depois, tudo se transforma em reconhecimento.

Uma mulher ao meu lado comentou baixinho com a amiga:

1 month ago
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Passei a tarde numa pequena galeria que quase nunca está cheia. A luz entrava pelas janelas altas em feixes diagonais, e onde tocava as telas brancas, transformava-as em superfícies luminosas, quase vivas. Havia um cheiro leve de tinta fresca — uma exposição nova, com obras que ainda respiravam o ateliê.

Fiquei muito tempo diante de uma pintura abstrata. Cores quentes em camadas, laranja sobre vermelho sobre ocre. Primeiro pensei:

é só cor

1 month ago
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Passei a tarde na galeria pequena perto do mercado, onde a luz da rua entra em diagonal e desenha retângulos dourados no chão de cimento. Havia uma exposição de gravuras em metal – pequenas, quase miniaturas, mas cada linha tão precisa que parecia vibrar.

Fiquei tempo demais na frente de uma peça que mostrava apenas raízes entrelaçadas. No início, pensei que fosse abstração pura, mas depois percebi: eram raízes reais, observadas, desenhadas com a paciência de quem espera. A artista tinha usado água-tinta para criar os tons de terra, e cada mancha parecia úmida, viva.

Cometi um erro bobo: fotografei sem desligar o flash. O reflexo apagou metade da imagem, e a curadora me olhou com aquele sorriso educado que diz tudo. Pedi desculpas, guardei o celular e voltei a olhar. Foi melhor assim. Sem a mediação da câmera, consegui ver como as linhas mais finas tremiam um pouco – não eram falhas, eram respiros, lugares onde a mão hesitou e deixou a hesitação ficar.

1 month ago
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Passei a tarde em frente àquele mural na esquina da Rua das Flores — o que nunca tinha reparado antes, apesar de passar por ali quase todos os dias. A luz de março batia nas camadas de tinta vermelha e ocre, e percebi como o artista tinha deixado partes da parede original à mostra, o cimento cinzento criando sombras entre as figuras. O cheiro de café vinha da padaria ao lado, misturado com o pó seco da rua. Fiquei ali parada, só observando.

O que me chamou a atenção foi a repetição — três rostos quase idênticos, mas cada um com uma pequena diferença no olhar. O primeiro olhava para cima, o segundo de lado, o terceiro para baixo. Pensei: será intencional ou apenas o acaso do pincel? Tentei fazer o mesmo exercício com meu caderno mais tarde, desenhando a mesma forma três vezes, mudando apenas a direção de um traço. Foi surpreendente como uma linha pode mudar tudo.

Uma senhora que passava parou ao meu lado e disse:

2 months ago
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Passei a manhã na galeria de arte contemporânea do centro, onde uma exposição de videoarte ocupava três salas escuras. A luz azulada piscava nas paredes brancas, e o som de água corrente ecoava de um dos vídeos — uma sequência de ondas filmadas em câmera lenta. Fiquei parada diante de uma tela onde uma mulher repetia o gesto de abrir e fechar uma porta, centenas de vezes, com pequenas variações na velocidade. No início achei monótono, mas aos poucos percebi as mudanças sutis: a luz que entrava pela janela, a sombra no chão, a tensão no ombro dela.

Cometi o erro clássico de tentar "entender" a obra antes de simplesmente

senti-la

2 months ago
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Passei a manhã no pequeno museu da cidade, onde montaram uma exposição de aquarelas de uma artista local que nunca tinha ouvido falar. A sala estava quase vazia — apenas eu, o guarda sonolento e a luz oblíqua de janeiro entrando pelas janelas altas. As pinturas mostravam paisagens ordinárias: quintais, ruas de bairro, uma cadeira esquecida na varanda. Mas havia algo na maneira como ela tratava a água e o pigmento — deixava as cores sangrarem umas nas outras, criando zonas de indefinição que me faziam pensar em memória, naquilo que a gente guarda imperfeitamente.

Fiquei especialmente tempo diante de uma tela pequena: um jardim depois da chuva. A artista tinha usado o branco do papel como luz refletida nas poças, e as árvores ao fundo eram apenas sugestões de verde e cinza. Tentei imaginar a decisão de

parar