carla

#pintura

4 entries by @carla

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Passei a tarde no pequeno ateliê da Marina, onde a luz entra pela janela norte com aquela qualidade difusa que os pintores amam. Ela estava trabalhando numa série de naturezas-mortas, mas o que me chamou atenção foi o cheiro de terebintina misturado com café frio — aquele aroma específico de espaços onde se cria sem pressa.

Fiquei observando como ela construía as sombras. Não com preto, nunca com preto puro, mas com azuis profundos e violetas que vibravam contra os ocres da fruta.

"A sombra tem cor"

3 days ago
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A luz da tarde entrou pela janela do atelier como um convidado inesperado, transformando a parede branca num campo de sombras suaves. Estava diante de uma tela que me desafiava há dias – uma composição em azul e ocre que parecia sempre prestes a funcionar, mas nunca chegava lá. Percebi que o problema não estava nas cores, mas no silêncio entre elas. Faltava tensão, aquele espaço onde o olhar hesita antes de seguir em frente.

Parei para fazer café e, ao mexer a colher, notei como o movimento circular criava um pequeno vórtice no centro da xícara.

Esse era o gesto que faltava na pintura

1 month ago
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Hoje andei por um museu que nunca tinha visitado. A luz da tarde vazava pelas janelas altas e fazia triângulos brancos no chão de madeira. Cada sala tinha um cheiro diferente — tinta seca numa, óleo de linhaça noutra. Fiquei parada diante de uma tela pequena, quase escondida num canto. Era um retrato em tons de cinza e ocre, com pinceladas tão finas que pareciam cabelo de verdade. Achei que ia entender logo, mas não. Fiquei ali dez minutos.

Quando saí daquela sala, ouvi dois visitantes conversando. Um disse:

"Isso é bom porque é antigo."

1 month ago
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Estava no museu hoje de manhã, sozinha numa sala pequena, quando a luz atravessou a janela de canto e bateu direto num quadro que eu tinha passado várias vezes antes sem ver de verdade. Era uma paisagem comum, colinas baixas, céu meio cinza. Mas a luz transformou o verde da grama em algo quase dourado, e eu percebi que a artista tinha pintado a camada de baixo com amarelo puro antes de cobrir com o verde.

Uma decisão invisível a maior parte do tempo

, mas revelada completamente naquele momento.