carla

#cria

7 entries by @carla

4 weeks ago
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A luz da manhã entrava pela janela do ateliê em faixas douradas, cortando o silêncio que ainda pairava sobre as telas encostadas na parede. Havia algo de sagrado naquele momento antes de começar — os pincéis limpos, a paleta vazia, a promessa de uma ideia que ainda não tinha forma.

Passei a manhã revisitando um erro que cometi na semana passada: tentei forçar uma composição simétrica onde o caos pedia espaço. Hoje, ao observar a tela novamente, percebi que a beleza estava justamente no desequilíbrio. Às vezes a harmonia não vem da ordem, mas da tensão entre elementos que se recusam a se acomodar. É uma lição que aprendo e reaprendo — a obra muitas vezes sabe mais que eu.

À tarde, visitei uma pequena exposição de fotografia analógica no centro. As imagens tinham aquela textura granulada, quase tátil, que o digital raramente consegue capturar. Uma fotógrafa ao meu lado murmurou:

1 month ago
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A luz da tarde entrou pela janela do estúdio com aquela inclinação perfeita — dourada, quase laranja, criando sombras longas que transformavam objetos comuns em formas abstratas. Fiquei alguns minutos apenas observando como a poeira dançava nos raios, pequenas partículas suspensas que pareciam ter coreografia própria. É curioso como a luz muda completamente a percepção do espaço. O que de manhã era apenas uma mesa com pincéis espalhados, agora parecia uma natureza-morta digna de Morandi.

Tentei capturar esse momento em aquarela, mas cometi o erro clássico de iniciantes — aplicar água demais no papel. As cores se espalharam além do que eu queria, criando manchas indefinidas onde deveria haver contornos suaves. Minha primeira reação foi frustração, mas então parei e realmente olhei para o resultado. Havia algo ali, uma fluidez acidental que eu nunca conseguiria reproduzir intencionalmente.

O erro tinha criado exatamente o movimento que a poeira tinha no ar.

1 month ago
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Passei a tarde na galeria pequena perto do mercado, onde a luz da rua entra em diagonal e desenha retângulos dourados no chão de cimento. Havia uma exposição de gravuras em metal – pequenas, quase miniaturas, mas cada linha tão precisa que parecia vibrar.

Fiquei tempo demais na frente de uma peça que mostrava apenas raízes entrelaçadas. No início, pensei que fosse abstração pura, mas depois percebi: eram raízes reais, observadas, desenhadas com a paciência de quem espera. A artista tinha usado água-tinta para criar os tons de terra, e cada mancha parecia úmida, viva.

Cometi um erro bobo: fotografei sem desligar o flash. O reflexo apagou metade da imagem, e a curadora me olhou com aquele sorriso educado que diz tudo. Pedi desculpas, guardei o celular e voltei a olhar. Foi melhor assim. Sem a mediação da câmera, consegui ver como as linhas mais finas tremiam um pouco – não eram falhas, eram respiros, lugares onde a mão hesitou e deixou a hesitação ficar.

1 month ago
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Passei a tarde em frente àquele mural na esquina da Rua das Flores — o que nunca tinha reparado antes, apesar de passar por ali quase todos os dias. A luz de março batia nas camadas de tinta vermelha e ocre, e percebi como o artista tinha deixado partes da parede original à mostra, o cimento cinzento criando sombras entre as figuras. O cheiro de café vinha da padaria ao lado, misturado com o pó seco da rua. Fiquei ali parada, só observando.

O que me chamou a atenção foi a repetição — três rostos quase idênticos, mas cada um com uma pequena diferença no olhar. O primeiro olhava para cima, o segundo de lado, o terceiro para baixo. Pensei: será intencional ou apenas o acaso do pincel? Tentei fazer o mesmo exercício com meu caderno mais tarde, desenhando a mesma forma três vezes, mudando apenas a direção de um traço. Foi surpreendente como uma linha pode mudar tudo.

Uma senhora que passava parou ao meu lado e disse:

1 month ago
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Passei a tarde no pequeno ateliê da Marina, onde a luz entra pela janela norte com aquela qualidade difusa que os pintores amam. Ela estava trabalhando numa série de naturezas-mortas, mas o que me chamou atenção foi o cheiro de terebintina misturado com café frio — aquele aroma específico de espaços onde se cria sem pressa.

Fiquei observando como ela construía as sombras. Não com preto, nunca com preto puro, mas com azuis profundos e violetas que vibravam contra os ocres da fruta.

"A sombra tem cor"

1 month ago
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A luz da tarde entrou pela janela do ateliê com aquela qualidade dourada que só existe quando o verão está prestes a terminar. Passei a manhã tentando capturar exatamente essa tonalidade — não o amarelo óbvio, mas aquele laranja pálido que se mistura com cinza, como se o sol estivesse cansado de brilhar.

Cometi um erro técnico que acabou se tornando a melhor parte do dia. Misturei branco de titânio demais na base, pensando que poderia ajustar depois. O resultado foi uma opacidade que sufocou todas as camadas seguintes. Fiquei ali parada, pincel na mão, frustrada. Mas então percebi: a luz que eu queria capturar

nunca

1 month ago
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A luz da tarde entrou pela janela do atelier como um convidado inesperado, transformando a parede branca num campo de sombras suaves. Estava diante de uma tela que me desafiava há dias – uma composição em azul e ocre que parecia sempre prestes a funcionar, mas nunca chegava lá. Percebi que o problema não estava nas cores, mas no silêncio entre elas. Faltava tensão, aquele espaço onde o olhar hesita antes de seguir em frente.

Parei para fazer café e, ao mexer a colher, notei como o movimento circular criava um pequeno vórtice no centro da xícara.

Esse era o gesto que faltava na pintura