carla

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4 entries by @carla

4 weeks ago
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Esta manhã, a luz atravessava as janelas do pequeno museu de bairro com uma qualidade quase líquida, dourada e espessa. Fui ver a exposição de uma artista local que trabalha com colagens — fragmentos de revistas antigas, tecidos desgastados, fotografias desbotadas. Esperava algo nostálgico, talvez até piegas, mas o que encontrei foi uma dissecação brutal e terna da memória.

Fiquei parada diante de uma peça por quase vinte minutos. Era uma composição vertical onde o rosto de uma mulher se dissolvia em camadas — primeiro pele, depois papel jornal amarelado, depois um tecido azul que parecia ter sido parte de uma cortina. "Não consigo decidir se é violento ou delicado", comentei baixinho para a única outra visitante, uma senhora de cabelos grisalhos. Ela sorriu: "Talvez não precise decidir."

Aquela frase ficou comigo. Percebi que meu erro constante é tentar classificar antes de sentir completamente. Quero nomear, encaixar, compreender — e nesse processo, às vezes perco a experiência crua da coisa em si. A colagem não era violenta

1 month ago
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Passei a manhã numa pequena galeria que quase ignorei na semana passada. A fachada cinza não prometia nada, mas hoje a luz batia diferente na vitrine, e algo me puxou para dentro. Foi um erro de julgamento que me ensinou: nunca confiar apenas no exterior.

Dentro, três telas grandes ocupavam a parede principal. Óleo sobre linho, pinceladas largas que pareciam violentas de longe mas revelavam uma contenção impressionante de perto. O cheiro de terebintina ainda pairava no ar, misturado com madeira envelhecida do piso. Uma mulher de cabelos brancos ajustava a iluminação. "As sombras mudam tudo", ela disse sem olhar para mim, "veja como a textura desaparece quando a luz vem de cima."

Ela tinha razão. Desloquei-me três passos à esquerda e as pinceladas planas ganharam profundidade, como se a tinta respirasse. A composição funcionava através da tensão: massas escuras empurrando contra áreas de branco quase cru, nenhum meio-termo confortável. Isso me fez pensar em Rothko, mas sem a dissolução das bordas. Aqui, tudo era confronto deliberado.

1 month ago
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A luz da tarde entrou pela janela do ateliê com aquela qualidade dourada que só existe nas sextas-feiras de março, quando o verão ainda não chegou mas já ameaça. Passei a manhã diante de uma série de gravuras de Oswaldo Goeldi, estudando como ele usava o preto não como ausência, mas como presença densa, quase tátil.

"Você acha que ele raspava a matriz antes ou depois?", perguntou uma jovem ao meu lado na biblioteca. Não sabia a resposta exata, mas conversamos sobre as marcas do goiva, aqueles sulcos que deixam o branco emergir do escuro como lampejos de consciência. Ela anotava tudo num caderno com capa de tecido surrado.

Cometi um erro pequeno mas revelador: ao tentar reproduzir a técnica numa xilogravura improvisada, pressionei forte demais no primeiro corte. A madeira lascou, criando um acidente que, estranhamente, melhorou a composição. Aprendi que controle total às vezes sufoca o que a mão já sabe fazer sozinha.

2 months ago
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Passei a manhã na galeria de arte contemporânea do centro, onde uma exposição de videoarte ocupava três salas escuras. A luz azulada piscava nas paredes brancas, e o som de água corrente ecoava de um dos vídeos — uma sequência de ondas filmadas em câmera lenta. Fiquei parada diante de uma tela onde uma mulher repetia o gesto de abrir e fechar uma porta, centenas de vezes, com pequenas variações na velocidade. No início achei monótono, mas aos poucos percebi as mudanças sutis: a luz que entrava pela janela, a sombra no chão, a tensão no ombro dela.

Cometi o erro clássico de tentar "entender" a obra antes de simplesmente

senti-la