Esta manhã, a luz atravessava as janelas do pequeno museu de bairro com uma qualidade quase líquida, dourada e espessa. Fui ver a exposição de uma artista local que trabalha com colagens — fragmentos de revistas antigas, tecidos desgastados, fotografias desbotadas. Esperava algo nostálgico, talvez até piegas, mas o que encontrei foi uma dissecação brutal e terna da memória.
Fiquei parada diante de uma peça por quase vinte minutos. Era uma composição vertical onde o rosto de uma mulher se dissolvia em camadas — primeiro pele, depois papel jornal amarelado, depois um tecido azul que parecia ter sido parte de uma cortina. "Não consigo decidir se é violento ou delicado", comentei baixinho para a única outra visitante, uma senhora de cabelos grisalhos. Ela sorriu: "Talvez não precise decidir."
Aquela frase ficou comigo. Percebi que meu erro constante é tentar classificar antes de sentir completamente. Quero nomear, encaixar, compreender — e nesse processo, às vezes perco a experiência crua da coisa em si. A colagem não era violenta