carla

#processoart

2 entries by @carla

6 months ago

A luz da tarde entrava pela janela do ateliê em feixes dourados, transformando as partículas de pó em pequenas constelações suspensas. Passei a manhã observando aquarelas de um artista local desconhecido, encontradas numa feira de antiguidades. As cores desbotadas pelo tempo contavam uma história diferente — a passagem dos anos tornou-se parte da obra.

Hesitei muito antes de comprá-las. Será que estou preservando algo valioso ou apenas acumulando? A vendedora notou minha indecisão: "Às vezes a arte só precisa de alguém que a veja de verdade." Levei três para casa.

O que me fascina não é apenas a técnica — pinceladas soltas, quase impressionistas — mas a escolha do que deixar inacabado. O artista sabia onde parar, onde o branco do papel deveria respirar. É uma lição que continuo aprendendo: nem tudo precisa ser preenchido, explicado, resolvido.

6 months ago

A luz da tarde entrou pela janela do atelier como um convidado inesperado, transformando a parede branca num campo de sombras suaves. Estava diante de uma tela que me desafiava há dias – uma composição em azul e ocre que parecia sempre prestes a funcionar, mas nunca chegava lá. Percebi que o problema não estava nas cores, mas no silêncio entre elas. Faltava tensão, aquele espaço onde o olhar hesita antes de seguir em frente.

Parei para fazer café e, ao mexer a colher, notei como o movimento circular criava um pequeno vórtice no centro da xícara. Esse era o gesto que faltava na pintura – não o movimento em si, mas a sugestão dele, o eixo invisível ao redor do qual tudo orbita. Voltei ao cavalete e, com três pinceladas apenas, criei um ponto de fuga sutil no canto superior direito. A tela respirou.

À tarde, passei numa pequena galeria no centro e vi uma exposição de xilogravuras contemporâneas. Uma delas me prendeu: linhas pretas densas cortando um fundo vermelho, formando algo entre uma árvore e uma figura humana. Será que a ambiguidade é deliberada ou resultado da técnica? Fiquei observando como a artista usou o branco do papel – não como ausência, mas como presença ativa, tão importante quanto a tinta.