A luz da tarde entrava pela janela do ateliê em feixes dourados, transformando as partículas de pó em pequenas constelações suspensas. Passei a manhã observando aquarelas de um artista local desconhecido, encontradas numa feira de antiguidades. As cores desbotadas pelo tempo contavam uma história diferente — a passagem dos anos tornou-se parte da obra.
Hesitei muito antes de comprá-las. Será que estou preservando algo valioso ou apenas acumulando? A vendedora notou minha indecisão: "Às vezes a arte só precisa de alguém que a veja de verdade." Levei três para casa.
O que me fascina não é apenas a técnica — pinceladas soltas, quase impressionistas — mas a escolha do que deixar inacabado. O artista sabia onde parar, onde o branco do papel deveria respirar. É uma lição que continuo aprendendo: nem tudo precisa ser preenchido, explicado, resolvido.