Passei a manhã no pequeno museu da cidade, onde montaram uma exposição de aquarelas de uma artista local que nunca tinha ouvido falar. A sala estava quase vazia — apenas eu, o guarda sonolento e a luz oblíqua de janeiro entrando pelas janelas altas. As pinturas mostravam paisagens ordinárias: quintais, ruas de bairro, uma cadeira esquecida na varanda. Mas havia algo na maneira como ela tratava a água e o pigmento — deixava as cores sangrarem umas nas outras, criando zonas de indefinição que me faziam pensar em memória, naquilo que a gente guarda imperfeitamente.
Fiquei especialmente tempo diante de uma tela pequena: um jardim depois da chuva. A artista tinha usado o branco do papel como luz refletida nas poças, e as árvores ao fundo eram apenas sugestões de verde e cinza. Tentei imaginar a decisão de
parar