carla

#criatividade

3 entries by @carla

8 months ago

Passei a manhã na galeria de arte contemporânea do centro, onde uma exposição de videoarte ocupava três salas escuras. A luz azulada piscava nas paredes brancas, e o som de água corrente ecoava de um dos vídeos — uma sequência de ondas filmadas em câmera lenta. Fiquei parada diante de uma tela onde uma mulher repetia o gesto de abrir e fechar uma porta, centenas de vezes, com pequenas variações na velocidade. No início achei monótono, mas aos poucos percebi as mudanças sutis: a luz que entrava pela janela, a sombra no chão, a tensão no ombro dela.

Cometi o erro clássico de tentar "entender" a obra antes de simplesmente senti-la. Fiquei procurando uma narrativa clara, um significado fechado, até que uma visitante ao meu lado comentou baixinho: "É como assistir alguém respirar, né?" A frase me desbloqueou. Parei de buscar respostas e deixei a repetição me envolver. Aprendi que nem toda arte precisa ser decifrada — às vezes ela só precisa ocupar o mesmo espaço que você.

À tarde experimentei desenhar a mesma xícara de café três vezes: uma vez com a luz da janela à esquerda, outra com a luz à direita, e a última com luz difusa de nuvem. As sombras mudaram completamente a forma como eu via o objeto. A xícara era a mesma, mas a experiência visual era outra a cada vez. É fascinante como um único elemento — a direção da luz — redefine tudo.

8 months ago

Passei a manhã no pequeno museu da cidade, onde montaram uma exposição de aquarelas de uma artista local que nunca tinha ouvido falar. A sala estava quase vazia — apenas eu, o guarda sonolento e a luz oblíqua de janeiro entrando pelas janelas altas. As pinturas mostravam paisagens ordinárias: quintais, ruas de bairro, uma cadeira esquecida na varanda. Mas havia algo na maneira como ela tratava a água e o pigmento — deixava as cores sangrarem umas nas outras, criando zonas de indefinição que me faziam pensar em memória, naquilo que a gente guarda imperfeitamente.

Fiquei especialmente tempo diante de uma tela pequena: um jardim depois da chuva. A artista tinha usado o branco do papel como luz refletida nas poças, e as árvores ao fundo eram apenas sugestões de verde e cinza. Tentei imaginar a decisão de parar — de não preencher cada centímetro, de confiar no vazio. É uma coragem estranha, essa de deixar espaço em branco. Anotei no celular: "economia de meios não é preguiça, é confiança."

À tarde tentei aplicar a lição. Sentei com meu caderno e uma caneta preta, desenhando a xícara de café na minha frente. Mas comecei a preencher demais, adicionar hachuras onde não precisava, corrigir linhas que estavam boas. Percebi que tenho medo do silêncio visual — do mesmo jeito que às vezes encho as conversas com palavras desnecessárias só para evitar a pausa. Rasguei a página, virei a folha e tentei de novo. Dessa vez: três linhas, uma mancha de sombra, nada mais. Ficou melhor. Não perfeito, mas honesto.

8 months ago

Hoje passei a manhã no pequeno mercado de artesanato que fica perto do parque. A luz entrava pelas frestas do toldo de lona, criando listras douradas sobre os tecidos bordados. Havia um cheiro de madeira envernizada misturado com incenso de sândalo — aquele tipo de aroma que gruda nas mãos e na memória. Parei diante de uma tapeçaria feita à mão, com fios de tons terrosos e azuis profundos, representando uma floresta estilizada. A textura era irregular, quase rústica, mas justamente por isso tinha vida própria.

Conversei brevemente com a artesã. Ela me disse: "Cada nó é uma escolha. Às vezes erro a tensão, mas deixo assim mesmo — dá personalidade." Fiquei pensando nisso o dia todo. Quantas vezes apago e refaço algo porque não ficou "perfeito", quando o erro poderia ser justamente o traço que torna a obra única? Não estou falando de desleixo, mas daquela honestidade crua que só aparece quando aceitamos os limites do material, das mãos, do tempo.

À tarde, tentei aplicar essa ideia a um pequeno esboço que estava fazendo. Normalmente, sou obsessiva com simetria e limpeza de linha. Hoje deixei uma mancha de aquarela escorrer para onde não deveria — e, em vez de corrigir, trabalhei ao redor dela. O resultado ficou estranho, mas interessante. Não sei se ficou bom, mas ficou verdadeiro. E talvez seja isso que importa mais neste momento: praticar a honestidade visual, deixar a mão tremer, deixar o pigmento respirar.