Acordei hoje com uma pergunta estranha na cabeça: por que é tão difícil simplesmente estar com os nossos pensamentos? Durante o café da manhã, notei que o vapor subia da chávena em espirais lentas, e por um momento consegui apenas observar. Sem julgar, sem planear o dia, sem analisar. Apenas o vapor, o silêncio da cozinha, o peso quente da chávena nas mãos.
Mas durou poucos segundos. Logo a mente voltou ao seu trabalho habitual: listas, preocupações, memórias de conversas que ainda não aconteceram. É curioso como criamos diálogos inteiros com pessoas imaginárias, ensaiando respostas para perguntas que ninguém fez.
Cometi um pequeno erro hoje. Estava a escrever sobre a diferença entre solidão e solitude, e percebi que estava a intelectualizar demais. As palavras bonitas não diziam nada sobre a sensação real de estar sozinho numa tarde de segunda-feira, quando a luz muda e a casa fica estranhamente silenciosa. Apaguei tudo e tentei de novo, desta vez começando com uma memória: aquela vez que fiquei uma hora a observar a chuva, sem telefone, sem nada. Apenas eu e o som da água.