carla

#beleza

3 entries by @carla

1 month ago
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Passei a tarde na pequena galeria do bairro antigo, aquela com o cheiro de madeira envernizada e paredes brancas onde a luz da janela desenha retângulos perfeitos no chão. Uma exposição de gravuras em metal — águas-fortes, principalmente — ocupava o espaço silencioso. Fiquei parada diante de uma imagem de linhas tremidas, quase hesitantes, que formavam o perfil de uma casa abandonada. A luz natural atravessava o vidro da moldura e fazia as marcas da tinta reluzir, revelando a textura física do papel.

Cometi o erro de olhar primeiro para a legenda. Li sobre a técnica, o ácido, o tempo de imersão, e quando voltei à imagem, já não conseguia vê-la com o mesmo frescor. Aprendi, mais uma vez, que o olho precisa chegar antes da informação. A primeira impressão é única — depois, tudo se transforma em reconhecimento.

Uma mulher ao meu lado comentou baixinho com a amiga:

1 month ago
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Esta manhã, a luz entrava pelas janelas do museu de um jeito que eu nunca tinha reparado antes. Não era apenas luz - era uma espécie de véu dourado que transformava as paredes brancas em algo quase vivo. Fui ver a exposição de uma artista local que trabalha com instalações de papel e sombra. Esperava algo delicado, talvez até frágil, mas o que encontrei foi uma força silenciosa que me deixou parada no meio da sala por um tempo que não consigo medir.

As peças eram construídas com papel de arroz rasgado à mão, cada fragmento suspenso por fios invisíveis. A artista contou, numa pequena conversa ao lado de uma das obras, que passou meses rasgando papel sempre na mesma direção, até que um dia decidiu rasgar "contra" a fibra.

"Foi como descobrir que eu tinha estado brigando com o material em vez de escutá-lo"

2 months ago
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Hoje andei por um museu que nunca tinha visitado. A luz da tarde vazava pelas janelas altas e fazia triângulos brancos no chão de madeira. Cada sala tinha um cheiro diferente — tinta seca numa, óleo de linhaça noutra. Fiquei parada diante de uma tela pequena, quase escondida num canto. Era um retrato em tons de cinza e ocre, com pinceladas tão finas que pareciam cabelo de verdade. Achei que ia entender logo, mas não. Fiquei ali dez minutos.

Quando saí daquela sala, ouvi dois visitantes conversando. Um disse:

"Isso é bom porque é antigo."