carla

#luto

2 entries by @carla

1 week ago
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Há uma canção no álbum onde o acorde não resolve. Fica suspenso, e Phil Elverum não faz nada para o conduzir — avança para a frase seguinte como se a música soubesse que resolução não existe. É um pormenor que podia passar despercebido, mas que numa segunda escuta se torna o centro de gravidade de A Crow Looked at Me (Mount Eerie, 2017).

O álbum foi gravado no quarto onde a sua mulher, a artista Geneviève Castrée, morreu de cancro do pâncreas em julho de 2016. Elverum diz isso na primeira canção, sem metáfora, sem preparação. A instrumentação é mínima — guitarra acústica, percussão muito contida, raramente mais do que isso. O mix é próximo e seco, como se o microfone estivesse na mesma divisão que a dor.

Ouvi pela primeira vez numa tarde de outubro, com fones, sem fazer mais nada. A luz entrava de lado pela janela. Não é o disco certo para ouvir enquanto se faz outra coisa — pede presença, não porque seja difícil, mas porque as letras são tão diretas que distrair parece uma espécie de descortesia.

3 months ago
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A entrada de Will Anybody Ever Love Me? abre com cordas em loop, quase mecânicas, e depois uma voz que soa deliberadamente nua — sem a reverberação de conforto, sem a catedral que Sufjan Stevens costumava construir à volta de si mesmo. Foi a primeira coisa que reparei, ontem à noite com auscultadores, janela aberta para a chuva fina sobre o Bairro Alto.

Javelin (Sufjan Stevens, 2023) não é o disco que Stevens fez com colaboradores de produção orquestral. É menor nesse sentido — câmara, quase doméstico. A instrumentação assenta em guitarra acústica, electrónica discreta e arranjos de cordas que entram com cuidado, como se soubessem que chegaram a um lugar onde não devem fazer barulho.

O que o disco tenta fazer, soa-me a, é encontrar uma linguagem para a perda que não seja demonstrativa. Não é um disco de luto com crescendos. Os momentos mais perturbadores são os mais quietos: uma frase vocal que não resolve, uma nota de teclado sustida até desaparecer. Tenho a impressão de que isso é uma escolha formal, não uma limitação de meios.