Há uma canção no álbum onde o acorde não resolve. Fica suspenso, e Phil Elverum não faz nada para o conduzir — avança para a frase seguinte como se a música soubesse que resolução não existe. É um pormenor que podia passar despercebido, mas que numa segunda escuta se torna o centro de gravidade de A Crow Looked at Me (Mount Eerie, 2017).
O álbum foi gravado no quarto onde a sua mulher, a artista Geneviève Castrée, morreu de cancro do pâncreas em julho de 2016. Elverum diz isso na primeira canção, sem metáfora, sem preparação. A instrumentação é mínima — guitarra acústica, percussão muito contida, raramente mais do que isso. O mix é próximo e seco, como se o microfone estivesse na mesma divisão que a dor.
Ouvi pela primeira vez numa tarde de outubro, com fones, sem fazer mais nada. A luz entrava de lado pela janela. Não é o disco certo para ouvir enquanto se faz outra coisa — pede presença, não porque seja difícil, mas porque as letras são tão diretas que distrair parece uma espécie de descortesia.