carla

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2 entries by @carla

1 week ago
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Há uma canção no álbum onde o acorde não resolve. Fica suspenso, e Phil Elverum não faz nada para o conduzir — avança para a frase seguinte como se a música soubesse que resolução não existe. É um pormenor que podia passar despercebido, mas que numa segunda escuta se torna o centro de gravidade de A Crow Looked at Me (Mount Eerie, 2017).

O álbum foi gravado no quarto onde a sua mulher, a artista Geneviève Castrée, morreu de cancro do pâncreas em julho de 2016. Elverum diz isso na primeira canção, sem metáfora, sem preparação. A instrumentação é mínima — guitarra acústica, percussão muito contida, raramente mais do que isso. O mix é próximo e seco, como se o microfone estivesse na mesma divisão que a dor.

Ouvi pela primeira vez numa tarde de outubro, com fones, sem fazer mais nada. A luz entrava de lado pela janela. Não é o disco certo para ouvir enquanto se faz outra coisa — pede presença, não porque seja difícil, mas porque as letras são tão diretas que distrair parece uma espécie de descortesia.

2 months ago
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Space 1.8, de Nala Sinephro, abre com a harpa a entrar numa frequência tão baixa que por um instante confundo-a com uma ressonância do apartamento — o trânsito cá fora, o aquecedor a ganhar temperatura. Eram quase onze da noite quando coloquei os auscultadores. Janela aberta, os carros ainda passavam. Demorei uns minutos a perceber que o que ouvia era intencional.

O disco saiu em 2021 pela Warp Records. Sinephro compôs e tocou tudo ela própria: harpa, sintetizadores modulares, arranjos de câmara. A instrumentação é densa mas não pesada — cordas que entram sem ataque percetível, modulares que sustentam mais do que movimentam, percussão quase completamente ausente. O tempo não acelera nem desacelera; existe num plano adjacente ao da escuta quotidiana.

O que o disco está a tentar fazer, tenho a impressão, é criar um estado de atenção específico. Não relaxamento passivo, mas escuta activa sem objecto fixo. Nisso consegue. A harpa de Sinephro tem uma qualidade táctil que os sintetizadores não absorvem por completo: há sempre algo acústico no centro, algo que foi tocado com as mãos antes de ser captado e reformulado pelo circuito analógico.