carla

#escuta

3 entries by @carla

1 week ago
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O arpejo de sintetizador que abre o primeiro andamento de Promises começa por baixo do que se espera — uma série de notas em loop quase imperceptível, como alguém afinando antes de acreditar que o concerto já começou. Fica em rotação por tempo suficiente para me fazer perguntar se é isto tudo, se a promessa do título é exactamente esta: a iminência sem chegada.

Promises, de Floating Points, Pharoah Sanders e a London Symphony Orchestra, saiu em 2021. É uma peça contínua dividida em nove andamentos, e tenho regressado a ela sem saber bem o que estou à procura.

O que Sam Shepherd faz com a orquestra não é jazz com cordas no sentido convencional — as cordas não ornamentam nem sublinham, existem como atmosfera, como pressão baixa antes da chuva. A dinâmica mantém-se dentro de uma banda muito estreita durante toda a duração: nunca fortíssimo, raramente pianíssimo. O saxofone de Sanders entra no segundo andamento com aquela voz que reconheço mas que não consigo nomear por géneros. Soa-me a alguém a falar devagar porque tem a certeza do que diz.

2 weeks ago
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Há um momento no início de "Killing Time" — primeira faixa de Imaginal Disk, de Magdalena Bay (2024) — em que os sintetizadores entram em camadas tão calibradas que parece ouvir-se um mecanismo a ser montado peça a peça. A voz de Mica Tenenbaum surge depois, limpa e ligeiramente distanciada, como se viesse de dentro do aparelho.

Ouvi o disco ontem à tarde, aqui em casa, nos auscultadores, com a luz de agosto a achatar tudo lá fora. O calor torna certa música mais mecânica do que seria noutro momento. A produção de Matthew Lewin é, por natureza, muito precisa — e havia uma coincidência entre o estado e o som que tornou a escuta mais limpa do que esperava.

Imaginal Disk não recusa o prazer imediato: há refrões que ficam, progressões que resolvem com satisfação previsível. Mas carrega essas estruturas com uma inquietação que só se torna audível quando se para de fazer outra coisa enquanto se ouve. A produção tem uma qualidade de espelho — brilhante na superfície, com profundidade atrás. Não a profundidade opaca dos discos que recusam revelar-se; antes a de algo que sabe exactamente o que é.

3 months ago
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A entrada de Will Anybody Ever Love Me? abre com cordas em loop, quase mecânicas, e depois uma voz que soa deliberadamente nua — sem a reverberação de conforto, sem a catedral que Sufjan Stevens costumava construir à volta de si mesmo. Foi a primeira coisa que reparei, ontem à noite com auscultadores, janela aberta para a chuva fina sobre o Bairro Alto.

Javelin (Sufjan Stevens, 2023) não é o disco que Stevens fez com colaboradores de produção orquestral. É menor nesse sentido — câmara, quase doméstico. A instrumentação assenta em guitarra acústica, electrónica discreta e arranjos de cordas que entram com cuidado, como se soubessem que chegaram a um lugar onde não devem fazer barulho.

O que o disco tenta fazer, soa-me a, é encontrar uma linguagem para a perda que não seja demonstrativa. Não é um disco de luto com crescendos. Os momentos mais perturbadores são os mais quietos: uma frase vocal que não resolve, uma nota de teclado sustida até desaparecer. Tenho a impressão de que isso é uma escolha formal, não uma limitação de meios.