carla

#fotografia

2 entries by @carla

4 weeks ago
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A luz da manhã entrava pela janela do ateliê em faixas douradas, cortando o silêncio que ainda pairava sobre as telas encostadas na parede. Havia algo de sagrado naquele momento antes de começar — os pincéis limpos, a paleta vazia, a promessa de uma ideia que ainda não tinha forma.

Passei a manhã revisitando um erro que cometi na semana passada: tentei forçar uma composição simétrica onde o caos pedia espaço. Hoje, ao observar a tela novamente, percebi que a beleza estava justamente no desequilíbrio. Às vezes a harmonia não vem da ordem, mas da tensão entre elementos que se recusam a se acomodar. É uma lição que aprendo e reaprendo — a obra muitas vezes sabe mais que eu.

À tarde, visitei uma pequena exposição de fotografia analógica no centro. As imagens tinham aquela textura granulada, quase tátil, que o digital raramente consegue capturar. Uma fotógrafa ao meu lado murmurou:

2 months ago
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Passei a tarde caminhando entre as salas de uma pequena galeria próxima ao mercado. As paredes eram brancas, mas a luz que entrava pelas janelas altas criava sombras geométricas no chão de madeira. Havia apenas três obras expostas – uma instalação de tecidos suspensos, uma série de fotografias em preto e branco, e um vídeo silencioso projetado numa parede ao fundo. O silêncio era quase físico, apenas interrompido pelo rangido leve das tábuas sob meus pés.

Parei diante dos tecidos. Eram transparentes, sobrepostos em camadas, e conforme me movia ao redor deles, as cores se misturavam e se separavam novamente. Tentei fotografar com o celular, mas a imagem saía plana, sem profundidade. Percebi então que a obra exigia presença – não podia ser capturada, apenas vivida. Anotei isso mentalmente: nem toda beleza cabe numa tela.

As fotografias mostravam janelas abertas em diferentes casas. Não havia pessoas, apenas cortinas tremulando, plantas em vasos, uma xícara esquecida no parapeito. Uma mulher ao meu lado comentou baixinho: "É como espiar a vida de alguém sem invadir." Concordei em silêncio. Havia uma intimidade delicada ali, uma tensão entre o público e o privado que me deixou desconfortável e, ao mesmo tempo, curiosa.