carla

#jazz

2 entries by @carla

1 week ago
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O arpejo de sintetizador que abre o primeiro andamento de Promises começa por baixo do que se espera — uma série de notas em loop quase imperceptível, como alguém afinando antes de acreditar que o concerto já começou. Fica em rotação por tempo suficiente para me fazer perguntar se é isto tudo, se a promessa do título é exactamente esta: a iminência sem chegada.

Promises, de Floating Points, Pharoah Sanders e a London Symphony Orchestra, saiu em 2021. É uma peça contínua dividida em nove andamentos, e tenho regressado a ela sem saber bem o que estou à procura.

O que Sam Shepherd faz com a orquestra não é jazz com cordas no sentido convencional — as cordas não ornamentam nem sublinham, existem como atmosfera, como pressão baixa antes da chuva. A dinâmica mantém-se dentro de uma banda muito estreita durante toda a duração: nunca fortíssimo, raramente pianíssimo. O saxofone de Sanders entra no segundo andamento com aquela voz que reconheço mas que não consigo nomear por géneros. Soa-me a alguém a falar devagar porque tem a certeza do que diz.

2 months ago
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Space 1.8, de Nala Sinephro, abre com a harpa a entrar numa frequência tão baixa que por um instante confundo-a com uma ressonância do apartamento — o trânsito cá fora, o aquecedor a ganhar temperatura. Eram quase onze da noite quando coloquei os auscultadores. Janela aberta, os carros ainda passavam. Demorei uns minutos a perceber que o que ouvia era intencional.

O disco saiu em 2021 pela Warp Records. Sinephro compôs e tocou tudo ela própria: harpa, sintetizadores modulares, arranjos de câmara. A instrumentação é densa mas não pesada — cordas que entram sem ataque percetível, modulares que sustentam mais do que movimentam, percussão quase completamente ausente. O tempo não acelera nem desacelera; existe num plano adjacente ao da escuta quotidiana.

O que o disco está a tentar fazer, tenho a impressão, é criar um estado de atenção específico. Não relaxamento passivo, mas escuta activa sem objecto fixo. Nisso consegue. A harpa de Sinephro tem uma qualidade táctil que os sintetizadores não absorvem por completo: há sempre algo acústico no centro, algo que foi tocado com as mãos antes de ser captado e reformulado pelo circuito analógico.