Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal.
Era uma foto de praia — azul desbotado, coqueiros tortos —, e no verso, uma letra redonda que ela reconheceu como a sua própria, de dez anos atrás. Quando chegar o verão, estava escrito, eu volto.
Ela ficou parada no meio da sala vazia. As paredes mostravam os quadrados mais escuros onde os quadros tinham ficado por anos, como sombras de coisas que partiram antes de você. A janela estava aberta. Entrava um cheiro de café e asfalto molhado — o cheiro específico daquela rua às manhãs de terça-feira, o único horário em que a cidade ainda parecia hesitar.