March 2026

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2Monday

A manhã começou com o cheiro de fermento vivo que deixei crescer durante a noite. Abri o pote de vidro e aquele aroma azedo, quase picante, encheu a cozinha – é um cheiro que me lembra a casa da minha avó, onde sempre havia uma tigela coberta com um pano branco perto do fogão.

Decidi fazer pão de centeio hoje, algo que não tentava há meses. A massa estava grudenta, mais do que eu esperava, e cometi o erro de adicionar farinha demais no começo. Aprendi rápido: o centeio não precisa de tanta estrutura quanto o trigo. Melhor deixar a massa úmida e confiar no processo.

Enquanto sovava, senti a textura mudar sob meus dedos – primeiro pegajosa e irregular, depois mais sedosa, quase viva. O barulho rítmico da massa batendo na tábua virou uma espécie de meditação. Parei para observar: a superfície começava a ficar lisa, com pequenas bolhas se formando por baixo, sinais de que o fermento estava trabalhando.

Será que está no ponto? Pressionei levemente com o dedo – a massa voltou devagar, deixando uma marca suave. Perfeito.

Enquanto o pão assava, aquele cheiro profundo de grãos torrados se espalhou pela casa. Fiquei esperando, inquieta, até ouvir o primeiro estalo da crosta se formando. Quando tirei do forno, a casca estava dourada e crocante, cantando aquele som de estalidos que todo padeiro adora.

Deixei esfriar apenas o suficiente para não queimar a mão. Cortei uma fatia ainda morna – o interior era denso mas úmido, com aquele sabor levemente ácido e terroso do centeio. Passei manteiga que derreteu instantaneamente, formando pequenas poças douradas.

A primeira mordida trouxe de volta domingos inteiros da infância, quando o tempo passava devagar e o pão ainda estava quente na mesa.

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