O chiado da carne de sol ao tocar a frigideira de ferro acordou a gordura que tinha ficado da véspera. Não lavei a frigideira depois do jantar — minha avó não lavava, dizia que a gordura guardada tempera o próximo. Aqueci devagar e esperei o cheiro mudar: primeiro metálico, depois quase adocicado, quando a gordura começou a trabalhar de verdade.
A peça era pequena, comprada sábado na mercearia do seu Duda antes que ele fechasse o toldo. Ele guardou a do fundo do caixote, mais curada, que fica mais escura e sola um pouco mais ao morder. Cortei em tiras largas e deixei selar de um lado só — não mexi, não tentei apressar. O calor fez o que sabe fazer.
Errei no fogo. Subi alto demais querendo ganhar tempo e a carne tostou antes de soltar. Tive que raspar o fundo com a colher de pau. Aquele raspado foi parar no molho que fiz depois — uma cebola que esfarelou no próprio suor, tomilho seco esfregado entre os dedos para acordar, um traço de vinagre de coco que encontrei esquecido no fundo do armário. O erro virou fundo.