A luz da tarde entrava pelas janelas altas da galeria, cortando o espaço em faixas diagonais que mudavam a cada quinze minutos. Fui ver a exposição de Beatriz Costa — pinturas abstratas que, à primeira vista, pareciam apenas manchas de azul e ocre. Mas quando me sentei no banco de madeira do centro da sala, algo começou a acontecer. As cores não estavam apenas lado a lado; elas conversavam, se empurravam, criavam um ritmo que eu conseguia quase ouvir.
Percebi que estava tentando "entender" as pinturas como se fossem quebra-cabeças. Que erro, pensei. Fechei os olhos por um momento e, ao abri-los, deixei apenas que as formas me alcançassem. O ocre não era só terra — era aquela luz quente de fim de tarde que atravessa cortinas finas. O azul não era céu, mas o silêncio entre duas frases. Beatriz estava trabalhando com ausências tanto quanto com presenças.
Conversei brevemente com a galerista, que me contou que Beatriz pinta em camadas durante semanas, deixando cada uma secar completamente antes de adicionar a próxima. "Às vezes ela remove mais do que acrescenta," disse. Essa ideia me acompanhou o resto do dia — que criar também pode ser subtrair, revelar o que já estava escondido sob camadas de intenção.