celia

#ficcao

18 entries by @celia

1 month ago
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A luz da tarde entrava pela janela da cozinha de um jeito que não tinha visto antes — oblíqua, quase sólida, cortando o vapor da chaleira em fatias douradas. Fiquei ali parada, esquecendo por um momento que tinha posto a água para ferver.

Há semanas tentava escrever um conto sobre uma mulher que desaparece aos poucos, começando pelas mãos. Cada versão soava forçada, mecânica demais. A metáfora gritava em vez de sussurrar. Mas ali, vendo aquela luz transformar vapor em algo quase tangível, entendi meu erro: estava explicando a transformação em vez de simplesmente mostrá-la acontecendo.

Desliguei o fogo e peguei o caderno que sempre deixo na mesa. Escrevi uma cena nova — a personagem fazendo café, percebendo que suas mãos não projetam mais sombra. Nenhuma explicação. Nenhum porquê. Apenas o momento de percepção, o modo como ela deixa a xícara cair, devagar, como quem solta algo que já não existe.

1 month ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito específico, aquele amarelo suave que só existe antes das oito da manhã. Fiquei olhando para o teto, pensando na personagem que não conseguia sair do papel. Ela estava presa entre duas cenas, como se recusasse a se mover.

Preparei café mais forte que o normal. Enquanto a água fervia, peguei meu caderno e escrevi a primeira coisa que veio:

"Ela não sabia por que voltava sempre àquele lugar"

1 month ago
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A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.

Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo.

O problema não era a história

2 months ago
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A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre:

2 months ago
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Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.

Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.

Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.

2 months ago
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Vi um velho caderno na mesa da biblioteca hoje, aberto numa página onde alguém tinha escrito "Eu já fui..." e parado ali. A tinta azul estava desbotada, as margens amareladas. Pensei no que viria depois—"jovem", talvez, ou "feliz". Ou talvez "outra pessoa". Fechei o caderno antes de me deixar preencher os espaços. Algumas histórias precisam ficar inacabadas.

Caminhei de volta para casa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque onde as árvores fazem um túnel de sombras. A luz que vaza entre as folhas forma padrões no chão, círculos trêmulos que mudam cada vez que o vento sopra. Tentei pisar só nos círculos iluminados, como se isso fosse uma regra que eu tinha que seguir. Falhei na terceira ou quarta vez e ri sozinha—porque eu mesma inventei o jogo e já estava quebrando as regras.

Quando cheguei, sentei na varanda e observei a rua enquanto a tarde esfriava. Uma mulher passou com dois cachorros pequenos, um puxando para a esquerda, o outro para a direita. Ela parou, respirou fundo, e disse em voz baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir: "Vocês dois vão me ensinar paciência ou me matar tentando." Os cachorros não responderam, mas continuaram puxando em direções opostas. Ela sorriu, exausta, e seguiu em frente.