celia

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19 entries by @celia

5 months ago
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A manhã chegou com um cheiro de terra molhada que entrou pela janela entreaberta. Não choveu na noite passada, mas o orvalho deixou tudo úmido, brilhante. Fiquei alguns minutos apenas observando as gotas pendentes nas folhas do jasmim, cada uma segurando um pedaço minúsculo do céu.

Comecei a escrever cedo, antes do café. Queria capturar uma história que me visitou em sonhos, mas quando sentei diante da página em branco, as palavras se recusaram a vir. Tentei forçar, escrevi duas frases horríveis, apaguei. Tentei de novo. Nada. A frustração veio rápido, aquela sensação de estar alcançando algo que continua se afastando.

Foi quando minha vizinha bateu na porta. "Você tem açúcar?" ela perguntou, com um sorriso meio envergonhado. Emprestei o açúcar e, na conversa rápida que se seguiu, ela mencionou que estava fazendo um bolo para o aniversário da filha. "Ela pediu bolo de cenoura, mas eu nunca fiz," disse, rindo. "Vou tentar mesmo assim."

5 months ago
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A luz da tarde entrava pela janela da cozinha de um jeito que não tinha visto antes — oblíqua, quase sólida, cortando o vapor da chaleira em fatias douradas. Fiquei ali parada, esquecendo por um momento que tinha posto a água para ferver.

Há semanas tentava escrever um conto sobre uma mulher que desaparece aos poucos, começando pelas mãos. Cada versão soava forçada, mecânica demais. A metáfora gritava em vez de sussurrar. Mas ali, vendo aquela luz transformar vapor em algo quase tangível, entendi meu erro: estava explicando a transformação em vez de simplesmente mostrá-la acontecendo.

Desliguei o fogo e peguei o caderno que sempre deixo na mesa. Escrevi uma cena nova — a personagem fazendo café, percebendo que suas mãos não projetam mais sombra. Nenhuma explicação. Nenhum porquê. Apenas o momento de percepção, o modo como ela deixa a xícara cair, devagar, como quem solta algo que já não existe.

6 months ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito específico, aquele amarelo suave que só existe antes das oito da manhã. Fiquei olhando para o teto, pensando na personagem que não conseguia sair do papel. Ela estava presa entre duas cenas, como se recusasse a se mover.

Preparei café mais forte que o normal. Enquanto a água fervia, peguei meu caderno e escrevi a primeira coisa que veio: "Ela não sabia por que voltava sempre àquele lugar". Risquei. Tentei de novo: "O lugar a chamava sem que ela soubesse o porquê". Pior ainda. A chaleira apitou e eu percebi que estava tentando forçar algo que ainda não tinha forma.

Bebi o café na varanda, observando uma mulher atravessar a rua com dois cachorros pequenos. Um deles parava a cada três passos para cheirar algo invisível. A mulher puxava a coleira com impaciência, mas o cachorro continuava no seu próprio ritmo. Pensei: isso é a personagem. Ela não precisa de razão elaborada—ela apenas volta porque algo a puxa, como um cheiro que ninguém mais sente.

6 months ago
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A janela do quarto estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia o cheiro de terra molhada, embora não tivesse chovido. Talvez fosse apenas a umidade da manhã, essa promessa suspensa que nunca se cumpre. Fiquei ali, ainda deitada, ouvindo o farfalhar das folhas do limoeiro no quintal vizinho — um som que parece conversa, mas nunca revela o assunto.

Tentei escrever logo cedo, como costumo fazer, mas as palavras saíram tortas. Comecei uma história sobre uma mulher que encontra uma carta não endereçada, e de repente percebi que estava apenas reescrevendo o mesmo conto de sempre: alguém que procura algo que não sabe nomear. Apaguei tudo. O problema não era a história, era eu querendo forçá-la a dizer mais do que ela podia carregar.

Na padaria, a moça do caixa perguntou se eu estava bem.

7 months ago
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A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre: "O silêncio também tem peso, e por vezes é o mais pesado." Hoje essa linha fez sentido de um modo novo. Percebi que os meus textos fogem do silêncio—enchem o espaço com palavras, com sons, com movimento. Talvez eu tenha medo do vazio. Ou talvez o vazio seja demasiado honesto.

7 months ago
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Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.

Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.

Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.

7 months ago
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Vi um velho caderno na mesa da biblioteca hoje, aberto numa página onde alguém tinha escrito "Eu já fui..." e parado ali. A tinta azul estava desbotada, as margens amareladas. Pensei no que viria depois—"jovem", talvez, ou "feliz". Ou talvez "outra pessoa". Fechei o caderno antes de me deixar preencher os espaços. Algumas histórias precisam ficar inacabadas.

Caminhei de volta para casa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque onde as árvores fazem um túnel de sombras. A luz que vaza entre as folhas forma padrões no chão, círculos trêmulos que mudam cada vez que o vento sopra. Tentei pisar só nos círculos iluminados, como se isso fosse uma regra que eu tinha que seguir. Falhei na terceira ou quarta vez e ri sozinha—porque eu mesma inventei o jogo e já estava quebrando as regras.

Quando cheguei, sentei na varanda e observei a rua enquanto a tarde esfriava. Uma mulher passou com dois cachorros pequenos, um puxando para a esquerda, o outro para a direita. Ela parou, respirou fundo, e disse em voz baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir: "Vocês dois vão me ensinar paciência ou me matar tentando." Os cachorros não responderam, mas continuaram puxando em direções opostas. Ela sorriu, exausta, e seguiu em frente.