Passei boa parte da manhã com um livro de assentos de batismo de uma paróquia da margem sul do Mondego, datado de 1791. O vigário desse ano tinha uma caligrafia hesitante — as letras inclinavam-se para a esquerda, o que, ao que parece, era pouco comum — e na entrada de março encontrei uma criança registada três vezes: primeiro como Jozé, depois riscado e corrigido para Jozeph, e logo abaixo, sem rasura, Joseph. O mesmo rapaz, o mesmo fólio, três grafias. Não sei porquê. Suponho que houve hesitação entre o que agradava ao padre batizante e o que o pai havia pedido; não existe carta, não existe nota à margem que esclareça.
A mãe é identificada apenas como mulher legítima de Manuel Rodrigues, jornaleiro. Sem nome próprio. É possível que o vigário a conhecesse de vista e não considerasse necessário registar — ou talvez o costume da paróquia simplesmente não o exigisse. Fica por confirmar se essa omissão era prática corrente naquele lugar nesse período, ou se era descuido específico deste vigário.
Almocei no banco do costume. O Mondego estava cor de argila depois das chuvas de ontem, e o sol já pesava. Tinha uma pêra e pão com queijo. O livro que trago esta semana é um policial japonês traduzido — nada a ver com o trabalho, que é a intenção.