Acordei com o som da chuva batendo na janela, aquele ritmo irregular que parece querer contar uma história antiga. Enquanto preparava o café, lembrei-me de uma passagem que li semana passada sobre as cartas de Clarice Lispector, onde ela descrevia a solidão como "um quarto vazio que se enche de si mesmo". A frase voltou hoje porque percebi, olhando pela janela molhada, como março carrega essa mesma qualidade de transição silenciosa.
Passei a manhã revisando notas sobre a Revolução Constitucionalista de 1932. O que me fascina não são apenas os grandes eventos, mas os pequenos gestos: mulheres doando alianças de casamento para fundir em balas, estudantes improvisando bandeiras com lençóis. História é feita dessas decisões minúsculas, tomadas em cozinhas e salas de estar, que só depois ganham peso nos livros.
Tentei organizar minha estante por períodos cronológicos, mas desisti na metade. Descobri que prefiro os livros agrupados por sensação — as obras sobre a Belle Époque ficam perto dos diários de viagem, não por época, mas porque ambas falam de mundos que se achavam eternos. Foi uma pequena revelação sobre como organizo não apenas livros, mas também pensamentos.