A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei: talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases.
Hoje tentei escrever uma história sobre uma mulher que perde a voz. Não por doença, mas por escolha. Comecei três vezes. Apaguei três vezes. Na quarta, percebi que estava a escrever sobre mim — sobre aqueles dias em que não digo nada, não porque não tenha nada a dizer, mas porque o silêncio parece mais verdadeiro.
Há uma frase que li ontem e que não me sai da cabeça: "A poesia não explica. A poesia testemunha." É do Herberto Helder, acho eu. Ou talvez tenha sido de outra pessoa, e eu a tenha moldado à minha memória. Não importa. O que importa é o que ela me trouxe: a permissão para não explicar tudo, para deixar as coisas meio ditas, como quem deixa uma porta entreaberta.