Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me largava do pensamento — um fundo de registos paroquiais de uma freguesia do concelho que foi incorporada na cidade no início do século XX, data que não saberia dizer com exatidão sem consultar o mapa administrativo. Abri-a de manhã, quando a luz ainda entrava oblíqua pelas persianas.
O que me prendeu foi um assento de batismo de 1804. A criança chamava-se Joana — escrito "Joana" numa primeira tentativa, depois riscado, e logo reescrito "Joanna", com dois ene. Não sei se foi o pároco a corrigir, se foi outra mão, nem se a ortografia da época admitia as duas formas sem distinção. O pai é descrito apenas como "jornaleiro"; a mãe não tem profissão indicada, o que era habitual. A madrinha é "Thereza Rodrigues, solteira" — sem mais. Não tenho forma de saber quem era Thereza.
Na mesma caixa, uma lista de despesas domésticas que suponho ser do final da década de 1830, embora a data esteja parcialmente ilegível. Alguém registou o preço de uma canada de azeite — se li bem, oitocentos réis — e a seguir, noutra caligrafia, a palavra "caro". Não sei se é uma anotação de quem copiou os valores ou de quem os pagou. É possível que sejam a mesma pessoa. O papel está manchado de gordura no canto inferior esquerdo; presumo que ficou perto de uma cozinha em algum momento da sua vida.